Os municípios brasileiros convivem, cada vez mais, com altas temperaturas, ruas expostas ao sol e a ausência de conforto térmico para pedestres. Em meio a esse cenário, a arborização viária, que deveria ser uma aliada no enfrentamento do calor e na melhoria da qualidade de vida urbana, tem perdido sua função essencial e sido tratada apenas como elemento decorativo.
Em vez de árvores capazes de fornecer sombra, reduzir a temperatura e melhorar a qualidade do ar, o que se observa em muitas cidades são copas reduzidas, podas frequentes e intervenções severas que anulam os principais benefícios ambientais da vegetação urbana.
A priorização da fiação aérea sobre o desenvolvimento adequado das árvores evidencia um modelo de planejamento urbano que se adapta à infraestrutura existente, e não o contrário. Na prática, árvores de médio e grande porte, muitas vezes com copas densas, são plantadas em locais incompatíveis com redes elétricas aéreas. Como consequência, tornam-se alvo de podas constantes e mutilantes, que transformam copas naturais em estruturas rarefeitas, comprometendo a saúde das árvores e aumentando, paradoxalmente, os riscos de quedas e falhas estruturais.
Desde 2012, existe o Guia de Arborização Viária e Áreas Verdes Públicas, que orienta o planejamento do plantio urbano considerando o espaço disponível, a arquitetura das copas e a compatibilidade com a infraestrutura existente. O próprio material técnico utilizado por concessionárias de energia, como a EDP, recomenda a escolha de espécies com copas adequadas e menor necessidade de intervenções severas, justamente para evitar mutilações futuras.
O guia destaca que, quando há fiação aérea, o plantio de espécies de médio e grande porte deve ser condicionado à disponibilidade de espaço para seu pleno crescimento. Ainda assim, na prática, observa-se o plantio de árvores de grande porte em locais inadequados, exigindo podas mensais agressivas para evitar o contato com a rede elétrica. Essa má condução da arborização urbana não afeta apenas o aspecto visual das cidades.
Os impactos se estendem à qualidade do ar, ao aumento da temperatura, à redução da biodiversidade urbana e ao enfraquecimento da relação da população com os espaços públicos — como praças e áreas de convivência. Além disso, intensifica-se o fenômeno das ilhas de calor, agravando o desconforto térmico e reduzindo a qualidade de vida.
Diante desse cenário, cresce o questionamento da população: até quando será normalizada a existência de cidades sem sombra? Enquanto a lógica do planejamento urbano não for revista, moradores seguem convivendo com ruas quentes, árvores mutiladas e uma arborização que enfeita, mas não cumpre sua função ambiental, social e climática.